A mamis França (culinariamente falando) é mesmo "francinante"!
Revirando o misto, mas muito organizado, baú em constante emergência de tendências minimalistas e tradicionais grandes pratos - às vezes no tamanho também!, é de babar, assustar e confundir, a percepção devastadora da cozinha francesa. Não que a nossa não seja fantástica! Mas tenho que reverenciar o forno que já produzia bárbaros pães, e que já sofria a introdução de novos conceitos culinários (frisando a preocupação com o visual dos pratos, técnicas de utilização de temperos, e por aí vai...) enquanto nossos índios ainda se assustavam com as galinhas! Claro que é notável - vejo até pela resistência à experimentar novos sabores (coisa comum em nossas mesas) quão jovem é nossa participação na história da culinária mundial. Mas vamos combinar, a relação entre uma coisa e outra é apenas questão de tempo: estamos fazendo um ótimo trabalho, né? Acho que contamos muito com a sorte também: um lugar tão rico em matérias primas não poderia carregar o tédio de uma outra situação, senão essa selva de criatividade onde comemos, que conta ainda com o incrível "jeitinho" brasileiro.
Assim, podemos adaptar quase qualquer receita aos ingredientes que temos ao nosso dispor, ou vice-versa. Estou a um pulinho da França, mas nem sempre encontro o que preciso para "parir"aquela impecável delícia sem erros. Foi assim que surgiu a idéia do jantar.
Sobre o Magret de Canard:
A receita original reza que seja feito do peito de um pato chamado Mulard, que por sua vez surge do cruzamento entre o pato Barbarie e o marreco.
A importância da utilização desse corte - que é o Magret, é principalmente por causa da "capa" de gordura sobre o peito, e a suculência da carne. Esses patos são criados para se tornarem realmente gordos, são "superalimentados", e é deles que também se extrai o fígado para um outro famoso prato francês, o Foie Gras.
Consegui - e muito por acaso!, um pedaço de peito de pato Barbarie, que por sinal tinha uma capinha de gordura razoável, e resolvi arriscar, preparando-o da mesma forma que o clássico Magret.
Não me arrependi! Ficou ótimo. A carne ficou espetacular, com uma cor rosa linda, muito macia, e um sabor (imagina, temperei só com sal e pimenta!) incrível! O toque doce do molho combinou muito bem, mas quero acentuar o quanto vale a pena ter esse corte, mesmo solitário, na sua tábua.
No rolo de não saber com o que acompanhar, fui de batatas gratinadas com Roquefort. Parece muita mistura de sabor, e as batatas iriam bem só com molho béchamel e algum queijo de sabor mais suave, sim. Mas ficou bom, porque usei pouco queijo no molho, e pouco molho também.
As batatas:
6 batatas descascadas e cortadas em rodelas
80 g de queijo Roquefort
200 g de creme frâiche
1 gema (só use se gostar assim)
noz moscada e pimenta do reino branca
tiquinho de parmesão ralado fininho
Aqueça o creme em fogo baixo, e acrescente o queijo picado. Se quiser, adicione a gema mexendo sempre e retire do fogo em seguida, temperando com pimenta e noz moscada.
Cozinhe as batatas ao dente, e as disponha num refratário untado com manteiga. Salpique mais pimenta conforme seu gosto. Espalhe um pouco de molho por cima, e faça outra camada de batatas. Mais molho, um pouquinho de parmesão e leve ao forno quente até começar a dourar na superfície. A idéia não foi fazer aquele gratinado com o queijo esticando, mas as batatas mais douradinhas, e unidas por algum creme saboroso.
Para o pato com figos:
1 peito de pato gordo com pele (400 a 500 g)
4 colheres (sopa) de geléia de figos
2 colheres (sopa) de vinagre balsâmico
6 unidades de figos frescos
sal e pimenta do reino
ciboulette ou cebolinha verde, a gosto
Faça riscas (com uma faca afiada) sobre a pele e gordura do peito de pato, sem chegar à carne, de forma que este fique com uma superfície "quadriculada". Tempere com sal e pimenta dos dois lados.
Corte uma tampinha nos figos, ajeite-os numa assadeira, e regue-os com uma mistura de 1 colher de geléia +
100 ml de água (se preferir, um pouquinho de vinho tinto vai muito bem!), e leve-os ao forno quente por 6 a 7 minutos.
Roubei do meu marido! rs. Essa maravilha de geléia ele ganhou da minha vizinha, pessoa muito querida, que por sinal é francesa! |
Uma dó. Sem preconceitos, mas queria os grandes rubros figos... Já é quase impossível encontrá-los. O meu vizinho verdureiro me garantiu que estes eram bons. E eram mesmo, rs . |
Leve ao forno quente, por 10 a 15 minutos. O ponto da carne deve ser: dourada por fora, e macia ao toque, ou seja, sem choro, mal passada por dentro. Se não gostar assim, nem tente. Ou você vai comer um pato duro e seco, e ainda deformar uma coisa que estava no caminho pra perfeição, rs.
Retire a carne, embrulhe num papel alumínio e deixe repousar por 5 minutinhos. Enquanto isso, na frigideira onde selou a carne, adicione o vinagre balsâmico, e leve ao fogo baixo, com 3 colheres de água. Junte a geléia de figo restante, e deixe ferver. Retire do fogo e reserve.
Apóie o peito para o corte, e faça fatias finas. Sirva imediatamente, com os figos e o molho, e polvilhados com ciboulette picada.
Leve a Carla Bruni junto, com sua fabulosa voz de cetim: